0 CRÔNICA - AMOR URBANO INUSITADO






Aqueles sem dúvida foram os piores anos da cidade do Rio de Janeiro. Os cariocas tinham perdido a alegria costumeira, o bom humor tão característico. O que havia eram obras intermináveis, violência gratuita, uma polícia extremamente truculenta servindo a um Estado opressor e um transporte público que nunca funcionava. Bete demorava cinco horas no trânsito para ir e vir do trabalho. Cinco horas perdidas que não dava para dormir, estudar, namorar, relaxar. Por semana eram menos vinte e cinco horas do seu dia. A cada semana ela perdia um dia mais uma hora da sua vida entre os intermináveis engarrafamentos dentro de um ônibus lotado com dezenas de  cúmplices dessa condição precária. Naqueles tempos, a sensação de desgoverno era unanime.


Precisamente naquele dia Bete estava com um mau humor ainda mais acentuado. Veio em pé no ônibus e um sujeito de uns vinte e poucos anos, pálido e de cabelo castanho viera assediando-a durante todo o percursos. “Você é muito linda”, dizia o jovem. “Me passa seu telefone, vamos sair”. Ela o ignorava, mas o sujeitinho não percebia o quanto estava sendo inconveniente. Ou percebia e não ligava. Quando desceu no seu ponto e foi caminhando pela rua Evaristo da Veiga no Centro, passou por uma viatura da polícia parada numa esquina e ouviu o sonoro “gostosa!”. Por alguns segundos tentou respirar fundo, mas lembrou do sujeitinho intragável do ônibus durante todo o percusso e subiu uma raiva gritante que a fez soltar em alto e bom som um: “vai tomar no meio do seu cu”. Foi o suficiente para a confusão ser armada. De um lados o policial a acusava de desacato e queria levá-la para delegacia. Do outro ela falava que aquilo era assédio e abuso de poder e emitia voz de prisão para o homem fardado. Ele apenas ria junto com outros dois policiais que o acompanhavam.


Logo vários pedestres paravam para ouvir aquela gritaria e filmar com seus smartphones. Bete queria chorar de ódio, mas não ia se permitir cair no choro na presença daqueles trogloditas. De repente sai da multidão um negro de dois metros e dez centímetros, voz grossa e cabeça raspada. Apesar do calor que fazia trajava um belo terno. O coração de Bete palpitou ainda mais forte. Não por ansiedade, foi paixão mesmo. E a primeira vista. Não que achasse que precisava ser defendida por homem nenhum, pelo contrário, sempre soube se virar muito bem sozinha. Mas resignada aceitou que naqueles tempos não tinha mais forças para lutar, a cidade minava sua energia dia após dias. E a presença daquele negro alto a encheu de uma paz reconfortante (principalmente por ele ser negro e alto).


Bete sempre namorou negros e altos. Era gorda e baixa mas isso nunca a atrapalhou de viver grandes paixões com os homens que mais a atraiam. Talvez por se considerar uma mulher atraente. Aquela mulher de um metro e cinquenta e cinco e setenta quilos toda segura de si causava certo encantamento em alguns caras. E para a sorte dela, principalmente nos negros e altos.

A confusão toda não demorou muito depois que Rômulo se apresentou como advogado de Bete. Os policias a deixaram em paz, a multidão se dispersou e eles sentaram em um café logo na outra esquina para conversarem. Rômulo queria explicar melhor, dentro da lei, o que tinha acontecido, e também falar como proceder em casos de abuso de autoridade como aquele.


Os dois se deram bem logo de cara. Bete o agradeceu bastante. Trocaram contatos e foram se conhecendo cada vez mais. Um mês depois largou o emprego e resolveu investir nos artesanatos que fazia. Não precisaria perder cinco horas naquele caos do transito, foi sua melhor escolha, diz até hoje. Logo depois começou a namorar o Rômulo, seis meses depois se casaram, exatamente no dia que o Brasil era desclassificado da Copa do Mundo...

Zuza Zapata

0 POETAS - MANOEL DE BARROS





Ontem assisti o documentário “Só dez por cento é mentira”, sobre a vida e obra do poeta Manoel de Barros. Fiquei encantado. Conheço muito pouco do Manoel de Barros, uma coisa aqui ou outra ali. Coisas bem pontuais. Depois desse filme deu vontade de ler tudo desse poeta sulmatogrossense. O título do filme refere-se a uma frase dele: "Noventa por cento do que escrevo é invenção. Só dez por cento é mentira". Manoel escreveu seu primeiro poema aos 19 anos. Seu primeiro livro foi publicado no Rio de Janeiro e se chamou "Poemas concebidos sem pecado". Foi feito artesanalmente por 20 amigos, numa tiragem de 20 exemplares e mais um, que ficou com ele. Nos anos 80, Millôr Fernandes começou a mostrar ao público, em suas colunas nas revistas Veja e Isto é e no Jornal do Brasil, a poesia de Manoel de Barros. Hoje o poeta é reconhecido nacional e internacionalmente como um dos mais originais do século e mais importantes do Brasil. Guimarães Rosa, que fez a maior revolução na prosa brasileira, comparou os textos de Manoel a um "doce de coco". Foi também comparado a São Francisco de Assis pelo filólogo Antonio Houaiss, "na humildade diante das coisas. (...) Sob a aparência surrealista, a poesia de Manoel de Barros é de uma enorme racionalidade. Suas visões, oníricas num primeiro instante, logo se revelam muito reais, sem fugir a um substrato ético muito profundo. Tenho por sua obra a mais alta admiração e muito amor." Segundo o escritor João Antônio, a poesia de Manoel vai além: "Tem a força de um estampido em surdina. Carrega a alegria do choro." Millôr Fernandes afirmou que a obra do poeta é "'única, inaugural, apogeu do chão." E Geraldo Carneiro afirma: "Viva Manoel violer d'amores violador da última flor do Laço inculta e bela. Desde Guimarães Rosa a nossa língua não se submete a tamanha instabilidade semântica". Manoel, o tímido Nequinho, se diz encabulado com os elogios que "agradam seu coração".

fonte: http://www.releituras.com/



Assistam esse delicioso filme e me contem! (:

Grande abraço!

Zuza Zapata

0 FILME - LÍNGUA: VIDAS EM PORTUGUÊS





“Língua: Vidas em Português” é um filme de 2004 de Victor Lopes em uma colaboração de Brasil com Portugal que propõe relatar os meandros da língua portuguesa em diversas culturas e países. Índia, Brasil, Portugal, Moçambique são alguns dos lugares onde a língua portuguesa está presente. É interessante notar como ela – a língua – se desenvolveu em cada local. Apesar de ser a mesma, o contexto histórico e cultural é importante para entendermos suas variáveis ou, pelo menos, identificarmos seu constante desenvolvimento, sendo, muitas vezes, influenciada e modifica por fatores externos que fogem do controle de qualquer norma linguística pré-estabelecida. O português de Portugal não é o mesmo do Brasil que não é o mesmo da Angola e Victor Lopes é muito feliz ao retratar de forma tão sensível essas diferenças, muitas vezes sutis, mas que revelam, sobretudo, as nuances das vivências humanas. Vale destacar ainda o belíssimo depoimento de José Saramago, João Ubaldo e Mia Couto. “Língua: Vidas em Português” é um filme que carrega poesia já no título e muito mais do que falar das variáveis da língua, fala das variáveis humanas que determinam o caminho da língua.

Grande abraço!

Zuza Zapata


0 LIVRO - ADMIRÁVEL MUNDO NOVO






Terminei de ler esse final de semana o livro “Admirável Mundo Novo” do Aldous Huxley. O livro foi publicado em 1932 e narra um futuro onde a procriação natural é eliminada e todos os seres humanos são criados em grandes fábricas ao redor do mundo. 

O homem é feito em espécies, os Alfas, Betas, Gamas, dentre outras variedades menores, de maneira que após o “nascimento” todos são condicionadas psicologicamente a viverem em harmonia com as leis e regras sociais referente a sua variedade (logo no início, vemos bebês de uma variedade baixa, a Delta, serem submetidos a choques quando aproximam-se de livros e plantas. O intuito é criar um desconforto que dure toda a vida, dessa forma os Deltas jamais perderão tempo lendo livros ou gostando de coisas naturais, como passeios no campo, que não custam nada além de transporte e jamais darão lucro a alguém). 

A sociedade desse futuro está no ano 632 depois de Ford. A referência para a contagem dos anos deixa de ser o nascimento de Cristo. Aqui temos um dos aspectos mais marcantes na civilização do futuro, na qual certas repressões tipicamente religiosas é que passam a ser condenadas. O objetivo essencial é garantir a estabilidade, o que é obtido por um sistema que proporciona a felicidade geral. 

Tudo que possa levar ao sofrimento é ignorado e reprimido. Tudo o que é longo e duradouro é criticado. A felicidade e o prazer devem ser instantâneos. Conceitos de famílias são tidos como vulgares. A satisfação sexual é elemento essencial para a felicidade e nada tem a ver com procriação. Todos são de todos e se prender a uma única pessoa é algo obsceno. Não há compromissos, nem vínculos emocionais. A promiscuidade é incentivada como dogma de felicidade (desde crianças são incentivadas a praticarem jogos eróticos). 

E se por algum motivo você começar a se sentir incomodado ou infeliz basta tomar uma dose de soma, uma droga sem efeitos colaterais distribuída pelo próprio governo que faz com que a pessoa fuja da realidade dos seus problemas. "O delicioso soma, meio grama para uma folga de meio dia, um grama para um fim-de-semana, dois gramas para uma viagem ao sumptuoso Oriente, três para uma sombria eternidade na Lua". 

É interessante notar como muita das coisas pensadas por Huxley na década de 30 do século passado tem se tornado cada vez mais reais. As pessoas do “Admirável Mundo Novo” vivem uma escravidão moderna não muito diferente da nossa, apenas infinitamente mais eficiente. E de certa forma isso é bastante assustador. 

Abraços, 

Zuza Zapata

0 POETAS - MARIO QUINTANA




Tem um livro que sempre me acompanha, que é a Antologia Poética do Mario Quintana da editora L&PM Pocket – inclusive, sou apaixonado por esse formato de livros. Na verdade o comprei na Bienal de 2001, mas só fui lê-lo quase doze anos depois. Ficou guardado durante esse tempo todo. Não saberia dizer o que fez com que não o lesse na época. Talvez não fosse a hora, vai entender. Mas o fato é que me apaixonei pela poesia de Quintana e ele se tornou meu poeta favorito. 

“Mario Quintana não se casou nem teve filhos. Solitário, viveu grande parte da vida em hotéis: de 1968 a 1980, residiu no Hotel Majestic, no centro histórico de Porto Alegre, de onde foi despejado quando o jornal Correio do Povo encerrou temporariamente suas atividades, por problemas financeiros e Quintana, sem salário, deixou de pagar o aluguel do quarto. Na ocasião, o comentarista esportivo e ex-jogador da seleção Paulo Roberto Falcão cedeu a ele um dos quartos do Hotel Royal, de sua propriedade. A uma amiga que achou pequeno o quarto, Quintana disse: "Eu moro em mim mesmo. Não faz mal que o quarto seja pequeno. É bom, assim tenho menos lugares para perder as minhas coisas". Essa mesma amiga, contratada para registrar em fotografia os oitenta anos de Quintana, conseguiu um apartamento no Porto Alegre Residence, um apart-hotel no centro da cidade, onde o poeta viveu até sua morte. Ao conhecer o espaço, ele se encantou: "Tem até cozinha!". Faleceu em 1994 em Porto Alegre. Em 2006, no centenário de seu nascimento, várias comemorações foram realizadas no estado do Rio Grande do Sul em sua homenagem” - wikipédia. 

Deixo aqui uma das minhas poesias preferidas do poeta, que se chama Pequeno Poema Didático e está na página 49 dessa antologia da L&PM Pocket.

"O tempo é indivisível. Dize,
Qual o sentido do calendário?
Tombam as folhas e fica a árvore,
Contra o vento incerto e vário.

A vida é indivisível. Mesmo
A que se julga mais dispersa
E pertence a um eterno diálogo
A mais inconsequente conversa.

Todos os poemas são um mesmo poema,
Todos os porres são o mesmo porre,
Não é de uma vez que se morre…
Todas as horas são horas extremas!"

Abraços,
Zuza Zapata

0 PELO MUNDO - MACHISMO DIÁRIO




Para os homens:
Quando uma mulher vier falar que sofre opressão não tentem fazer um paralelo entre a opressão sofrida pelas mulheres e a possível opressão sofrida pelos homens. São coisas diferentes. Acho que a nós homens cabe apenas ouvi-las e tentar mudar comportamentos. E também é uma falha bem grande tentar colocar o movimento feminista como algo único e homogêneo. Há várias linhas de pensamentos e vertentes. Afinal há várias demandas sociais, culturais, etc. Não vou falar para os homens se colocarem no lugar da mulher na tentativa de entender a opressão de gênero, até porque isso é impossível, se colocar no lugar do outro. Eu nasci homem, fui criado como homem e minha percepção do mundo é a de um homem. Mesmo num exercício de imaginação incrível eu não conseguiria me colocar no lugar da mulher, para isso eu precisaria ser mulher. Mas mais importante do que se colocar no lugar do outro é você entender e se sensibilizar com a causa do outro. Não cabe a nós homens achar isso ou aquilo sobre a opressão sofrida pela mulher. Nós não sofremos esse tipo opressão, não temos nem ideia de como isso de fato as afeta. Elas vivem diariamente a opressão de gênero em todos os ambientes. E é por causa dessa opressão toda que temos que ler dados como esse que saiu no G1: 50 mil mulheres são estupradas por ano no Brasil. Então, quando uma amiga, esposa, namorada, amante, mãe, irmã, tia, avó, prima, ficante, colega de escritório vier falar que sofreu algum tipo de opressão, não tente deslegitimar isso, minimizando e falando que você também sofre opressão. Não tente dizer pelo o que ela deve lutar como se não tivesse condições de decidir por si o que importa pra ela. Apenas ouça e tente não repetir a opressão, já é um grande caminho.


Cinquenta mil mulheres são
Estupradas por ano no Brasil

Cinquenta mil
MULHERES
São estupradas por ano no Brasil

Cinquenta mil mulheres são
ESTUPRADAS
por ano no Brasil

Cinquenta mil mulheres são
POR ANO
Estupradas no Brasil

Cinquenta mil mulheres
Cinquenta mil!


Abraços!

Zuza Zapata

EDIT: algumas horas depois de fazer esse post me sai essa pesquisa no site UOL:

"Um estudo divulgado nesta quinta-feira (27) pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) revela que a maioria da população brasileira acredita que "mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas" e que "se as mulheres soubessem como se comportar, haveria menos estupros"."
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